Entre a tradição artesanal e a convivência comunitária, uma crônica sobre a música que molda a identidade no interior do Tocantins.
Assim eram as manhãs de domingo. O Manoel, filho do Seu Getúlio — um dos últimos mestres da rabeca de buriti, conhecido por todos como Seu Miúdo —, batia levemente na minha porta. O toque era suave e ritmado, marca registrada de quem domina o pandeiro no grupo da família.
Eu nem precisava olhar para saber quem era. Naquela cidade pacata do Jalapão Ponte Alta do Tocantins, vigora um código próprio de pertencimento: o sobrenome é a própria origem. Sendo meu pai o Seu Pedro, eu sou o Luciano do Seu Pedro; ele, sem rodeios, é o Manoel do Seu Miúdo.
— Luciano, meu pai está chamando você para tomar um café lá em casa. Aproveita e traz o violão.
O convite era, na verdade, a senha oficial para o nosso ensaio.
A Chácara Urbana e a Velocidade do Som
Nossas casas, embora estivessem no perímetro urbano, guardavam a alma do sertão. Eram terrenos generosos, verdadeiras chácaras tomadas por pomares de caju, manga, jaca, limão, mandioca e cana. Tínhamos a conveniência da cidade envelopada pela calma do campo.
"Eu costumava brincar que a turma de lá era mais rápida que a velocidade do som: não dava tempo nem de afinar o instrumento e o quintal já estava povoado."
Antes mesmo do primeiro acorde, os vizinhos começavam a encostar. A notícia de música se espalhava pelo vento.
O Regional do Buriti
Aí começava o ritual. Eu me concentrava para alinhar a afinação do meu violão à sonoridade única da rabeca de buriti do Seu Miúdo — instrumento artesanal esculpido na própria palmeira, símbolo da resistência cultural da região. Logo depois, o João chegava para dar o tom grave com o tambor.
Estava formado o regional: rabeca de buriti, pandeiro, tambor e o meu violão na sustentação da harmonia.
E o café?
O café, que servira de pretexto inicial para o encontro, repousava esquecido no bule sobre o fogão a lenha. A essa altura, já havia esfriado e esquentado de novo.
Ninguém se importava. Afinal, ali no Jalapão, o café servia apenas para juntar as pessoas; quem realmente alimentava a manhã era a música.
(Cultura Jalapoense . Crônicas Culturais do Tocantins Profundo - Luciano de Souza).

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