quarta-feira, 21 de outubro de 2026

MÚSICA E RESISTÊNCIA: Projeto Megazord une ícones do rock nacional na faixa “Quem Você Vê?”


A cultura e a política sempre caminharam lado a lado na construção da identidade de um país. Historicamente, a classe artística se posiciona não apenas nos palcos, mas também nas trincheiras de defesa da democracia e das políticas públicas de fomento. É exatamente esse o espírito do "Projeto Megazord", um coletivo musical formado por grandes ícones do rock, emo, punk e hardcore nacional, que acaba de lançar a faixa inédita “Quem Você Vê?”.

A música, lançada em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai muito além de um manifesto eleitoral: trata-se de um grito de alerta pela continuidade da reconstrução do setor cultural no Brasil.

O Som da Reconstrução Cultural

Como já discutimos anteriormente aqui no Cultura-TO, o Brasil passou por anos sombrios recentes onde a cultura foi tratada como inimiga. Enfrentamos a extinção do Ministério da Cultura (MinC), a paralisação da Ancine e o veto inicial às fundamentais Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2. A união de músicos de diferentes vertentes na faixa "Quem Você Vê?" reflete o alívio e a necessidade de manutenção do atual cenário de retomada.

Para que editais cheguem aos estados e municípios, para que o Sistema Nacional de Cultura funcione e para que o fomento alcance a ponta, é preciso que o governo federal encare a arte como pilar de desenvolvimento social e econômico, e não como alvo de censura ideológica. O rock nacional, conhecido por sua essência contestadora, agora se mobiliza para garantir que o desmonte não volte a assombrar os fazedores de cultura.

Reflexos no Tocantins: A Força da Mobilização

O movimento encabeçado pelo Projeto Megazord em âmbito nacional reverbera diretamente nas políticas públicas locais. No Estado do Tocantins, a articulação e a resistência dos artistas são o motor de instâncias vitais como o Conselho Estadual de Cultura (CEC/TO) e o Colegiado Setorial de Música.

Quando artistas de peso nacional se unem para defender um projeto de governo alinhado à valorização cultural, eles fortalecem a base para que leis estaduais de fomento, repasses de fundos municipais (como o de Palmas) e a aplicação do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) ocorram com fluidez e transparência. A música "Quem Você Vê?" nos lembra que a organização da sociedade civil e da classe artística é a principal garantia de que os Planos Setoriais saiam do papel e se transformem em trabalho, renda e arte para a população tocantinense.

A Arte Como Instrumento de Diálogo

O punk, o emo e o hardcore sempre deram voz às angústias e às demandas da juventude e da classe trabalhadora. Ao canalizar essa energia em apoio a um projeto que tem como premissa a reconstrução do MinC e a democratização do acesso aos recursos da Lei Rouanet e outras legislações de fomento, o Projeto Megazord convida o público a uma reflexão direta: Quem você vê quando olha para o futuro da cultura no Brasil?

A resposta, para os conselheiros, gestores e agentes culturais que acompanham de perto as políticas públicas, deve ser sempre o compromisso com a diversidade, a memória e a garantia de direitos. Que o acorde dessa união nacional continue soando forte em cada edital lançado e em cada conselho municipal e estadual do nosso Tocantins.

Detalhes sobre o Projeto e o Vídeo
  • A Mensagem: A faixa traz uma mensagem focada na união, na defesa da democracia e no respeito às diferenças para a construção de uma ação coletiva. Versos proeminentes incluem "Em muito nós somos iguais", "E a diferença agora não vai nos deter" e "Há tanta coisa em jogo pra ficar indeciso. Olha pro lado e diga quem você é". 
  • O Nome "Megazord": O termo faz uma alusão ao famoso robô gigante da série Power Rangers, que é formado a partir da união de diferentes máquinas para enfrentar grandes ameaças comuns. 
  • Principais Participantes: O manifesto musical conta com integrantes e vocalistas de bandas de peso do cenário nacional, tais como:
    • Fresno
    • NX Zero (Di Ferrero)
    • CPM 22 (Badauí e Phil)
    • Forfun / Braza (Danilo Cutrim)
    • Dead Fish
    • Black Pantera
    • Supercombo
    • Gloria
    • The Mönic
    • Far From Alaska
    • Entre outros nomes da cena (como Hateen, Zander, Badluv e Ego Kill Talent)

terça-feira, 20 de outubro de 2026

RECONSTRUÇÃO-Bolsonaro extinguiu Ministério da Cultura quando esteve no governo e Flávio fala abertamente em se inspirar no pai

 


É difícil começar um texto desse tipo de modo que não soe catastrófico. Mas é isso. Se Flávio Bolsonaro for eleito, a grande tendência é que seja mais um governo catastrófico para a cultura no Brasil. Ele diz que vai se inspirar nos anos de presidência do pai, e sabemos muito bem como aquela época foi difícil. Então, não é complicado imaginar o futuro na área.

Vocês se lembram? 

Para começar, o Ministério da Cultura foi extinto logo no início de 2019, e suas atribuições passaram para uma secretaria então subordinada ao Ministério da Cidadania, depois transferida ao Turismo.

Para dar só um exemplo, talvez o caso mais bizarro (entre os tantos que tivemos na época) tenha sido o de Roberto Alvim, que foi secretário por apenas 71 dias. Ele divulgou um vídeo institucional reproduzindo trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.  

Eu não esqueci. 

Não esqueci que em 2022, ainda durante a pandemia, Jair Bolsonaro vetou integralmente as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2. A primeira previa cerca de R$3,86 bilhões para enfrentar os efeitos da pandemia, já a segunda estabelecia uma política continuada de fomento. O congresso derrubou os vetos. Os dois artistas que deram nomes às leis morreram pela Covid durante aquele período. 

Leu essas? Todos os textos da série especial #Colabora com o Brasil

Há muitas outros acontecimentos ruins, como a perseguição a liberdade de fazedores de cultura e artistas, a censura a projetos com a temática LGBTQIA+ (muitos casos inclusive mapeados pelo Observatório de Censura à Arte, iniciativa que idealizamos no Nonada), o esvaziamento da Ancine, a crise na Cinemateca Brasileira, a tentativa de expurgo de livros da Fundação Cultural Palmares. E eu nem citei o uso de critérios políticos e religiosos na análise de projetos na famigerada Lei Rouanet..

Tanto que, durante boa parte do governo Lula, a palavra “reconstrução” foi uma das mais pronunciadas: reconstruir o Ministério da Cultura e as políticas públicas da área, trazer de volta a valorização da cultura popular, da memória e do patrimônio material e imaterial. Um ponto marcante também foi a discussão sobre a intersecção entre cultura e clima, que culminou, entre outras coisas, em diversas discussões na COP30, no ano passado, em Belém, no Pará. 

Para onde vai esse trabalho todo se Flávio Bolsonaro se eleger presidente?

Certamente, as discussões não vão acabar, porque uma palavra que o povo da cultura sempre soube conjugar foi resistência. Mas cansa. E falo aqui como jornalista que trabalha na área, como diretor de uma organização que trabalha com cultura, jornalismo e educação e também como produtor cultural. 

Quando um governo não valoriza as diferentes memórias que ajudam a formar as identidades e as culturas de um país, restringe também o espaço para a diversidade de pensamentos e de entendimentos sobre o Brasil e os brasileiros. Como por exemplo, a ideia de que a cultura também é fundamental para a economia e para o bem viver.

A Lei Rouanet contribui para a criação de diversos postos de trabalho a cada ano, sustentando vidas e histórias. Os editais e as diversas leis de cultura também ajudam toda a cadeia cultural, que, por sua vez, influenciam muito na vida financeira do país. 

Mas o plano de Flávio dedica pouco espaço à cultura. E isso diz muito.

Rafael Gloria


Rafael Gloria é jornalista, escritor e fundador e diretor executivo da Associação Cultural Nonada Jornalismo. Formado em Jornalismo pela UFRGS, é especialista em Jornalismo Digital pela PUCRS, mestre em Comunicação pela UFRGS e mestrando em Escrita Criativa pela PUCRS. Pesquisa a não ficção literária e o perfil jornalístico, com interesse nas relações entre escrita, escuta e memória. Atua no jornalismo cultural e ministra cursos e oficinas de jornalismo e escrita.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Marco Antônio Baleeiro Alves é homenageado na 28ª Bienal do Livro com prêmio literário e lançamento internacional

 Por Luciano de Souza, Editor do Blog Cultura-TO


Marco Antônio Baleeiro Alves 
Sessão de Autógrafo

Conhecido no estado do Tocantins por sua trajetória acadêmica como professor e pesquisador com forte atuação na Universidade Federal do Tocantins (UFT), Marco Antônio Baleeiro Alves consolida agora sua atuação no cenário literário. Durante a 28ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo, o autor participou do lançamento da obra "A Coletânea Poética Internacional"– Café com Leni e Convidados, um projeto literário anual organizado pela escritora Leni Zilioto ocasião em que foi condecorado com o Diploma de Mérito Acadêmico Ciccillo Matarazzo pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia (RJ).

A inserção no mercado editorial dialoga diretamente com sua produção científica pregressa. O pesquisador já havia demarcado espaço com a publicação de "Tecnociência Solidária em Áreas Rurais: (Re) Pensar a Pesquisa-Ação", obra na qual problematiza o modelo hegemônico de inovação e propõe abordagens calcadas nas demandas da agricultura familiar e movimentos sociais. Com experiência acumulada no serviço público federal de 20 anos de carreira, atualmente trabalha na Esplanada dos Ministérios em Brasília - DF, tendo passado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e Ministério do Trabalho e Emprego, e no meio de tantas atividades consegue encontrar tempo nas horas vagas para escrever poesias, além de outras atividades literárias.


Para detalhar essa transição da pesquisa-ação acadêmica e técnica para a literatura lírica e entender seus próximos passos profissionais e políticos, o Blog Cultura-TO realizou uma entrevista exclusiva com o autor.





Entrevista Exclusiva

  • Cultura-TO: Marco, como surgiu o convite para sua participação nesta coletânea internacional de poesias?

    Marco Antônio Baleeiro Alves: Foi por meio da mãe de um amigo que faleceu aos 40 anos de câncer generalizado, o ano era 2018. Ela é uma grande poetisa na minha opinião, que inclusive eu não a conhecia, dado que esse meu amigo trabalhava com equipamentos de radioterapia no Hospital Geral de Palmas e eu na UFT, ficamos muito amigos. Ele deixou uma jovem esposa e três filhos pequenos naquela época. A mãe desse meu amigo se chama Jussara Burgos (também premiada), é poetisa desde criança. Ela havia identificado, por meio de um áudio no celular de outro amigo, a admiração que eu tinha por seu filho. Então, ela resolveu entrar em contato comigo e daí surgiu uma amizade muito bonita. Sou grato a ela por me colocar nesse caminho da poesia e também sou muito grato a Deus por ter colocado uma companheira na minha vida. Coincidentemente, eu havia feito uma poesia para a mulher que hoje é a minha noiva e estamos de casamento marcado, inclusive, Naygara Suemer é seu nome. As poesias foram muito bem recebidas pelos avaliadores, em especial pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia e a professora Leni Zilioto que enxergou o potencial artístico.


    Leni Zilioto e Marco Antônio

    Baleeiro Alves
    Eu já admirava a arte da poesia desde a minha adolescência, nas aulas da professora Teresa de literatura no Ensino Médio entre 1994 e 1996. Ela era uma professora incrível que explicava as escolas literárias numa dramaticidade brilhante em suas aulas. Fiquei muito tempo sem escrever, até que, há cerca de dois ou três anos, resolvi voltar. Foi quando fiz a “Poesia do Olhar” para o amor que hoje é minha noiva. A premiação [na Bienal] foi em consequência da Academia de Letras de São Pedro Da Aldeia, no RJ.





    Cultura-TO: Como tem sido essa experiência de voltar às publicações, especialmente no formato impresso?

    Marco Antônio: Prefiro as publicações impressas, não somente por serem mais sustentáveis quando comparadas com as eletrônicas, mas também pelo fato de que penso que promove uma melhor divulgação da obra, pelo estímulo à leitura, dado que ainda estamos muito aquém nesses índices, especialmente no Brasil. O jovem brasileiro lê muito pouco. Precisamos reeleger Lula novamente, pois não queremos mais armas e sim mais livros.

    A atividade literária e até mesmo o simples ato de ler tem sido o privilégio não de uma elite financeira, mas de uma elite cultural, pouquíssimo expressiva numericamente, sem apoio de políticas públicas adequadas, dada a onda conservadora que insiste em castigar o mundo. Particularmente, acredito que se a escola não estimula a leitura, a família tampouco o faz, e quando o jovem chega na universidade não há um estímulo adequado por parte dos professores e professoras. Contudo, chamo atenção para o fato de que não basta ler muito, é preciso ler com os olhos da crítica, mas não a crítica destrutiva, e sim a crítica dialética e dialógica, que para mim é a melhor de todas.


    Cultura-TO: O lançamento ocorreu no dia 6 de setembro na Bienal. Há novos trabalhos literários ou científicos em vista para os próximos anos?

    Marco Antônio: Sim, pois acredito fielmente que a arte da poesia é uma das respostas firmes que precisamos dar ao estado de policrise epistêmica, ambiental, social, cultural e econômica que vivemos atualmente no mundo todo. Fizemos o lançamento desse trabalho na 28ª Bienal do Livro em São Paulo, foi uma experiência incrível. Agora, estou trabalhando em dois livros com perspectiva de publicação para o ano que vem (2027).

    • Economia Solidária: entre a utopia e sobrevivência, tecendo esperanças para colher sonhos: A obra vai além dos resultados de uma pesquisa onde uso a metodologia da Observação Participante, na qual venho me aprofundando desde 2022 junto aos movimentos que defendem a economia solidária. Trata-se de um livro que explica as transformações que a economia solidária vem sofrendo devido ao estado de policrise que estamos vivendo e sua relação com o semiocapitalismo, que a descaracteriza. Há problematizações sobre conceitos-chave, como economia solidária digital e tecnociência solidária, que ajudam a entender as transformações no mundo e avaliar os caminhos possíveis.

    • Obra poética autoral: O segundo projeto é um livro de poesias, onde apresento reflexões filosóficas, sociológicas e até espiritualistas. Nele, aproveito para fazer uma homenagem à minha falecida mãe, que foi levada pelo câncer em 1993, quando eu ainda tinha apenas 13 anos de idade. Isso porque ela foi e continua sendo a minha grande chama inspiradora.

  • Marco Antônio fazendo um  tour no evento gravando e comentando.


Sobre o Autor

Marco Antônio Baleeiro Alves atua no cruzamento entre a pesquisa tecnocientífica e a gestão de políticas públicas. É Doutor em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP (2024) e especialista em Gestão Estratégica da Inovação. Sua trajetória é marcada pela estruturação de processos focados no desenvolvimento socioambiental e na economia solidária:

  • Governo Federal: Atualmente atua como Assistente na Secretaria-Geral da Presidência da República, coordenando ações do Comitê Interministerial de Inclusão Socioeconômica de Catadoras e Catadores.

  • Gestão de Projetos: Possui histórico como Chefe de Projeto na Secretaria Nacional de Economia Popular Solidária (MTE).

  • Academia e Inovação: Integrou o quadro técnico da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde dirigiu o Núcleo de Inovação Tecnológica, liderando projetos de patentes e soluções voltadas para o meio rural.

  • Produção Científica: É autor de publicações de impacto em agroenergia e tecnociência, com ênfase no aprimoramento tecnológico da agricultura familiar.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sons do Jalapão: A Rabeca de Buriti e o Café Esquecido do Domingo

Entre a tradição artesanal e a convivência comunitária, uma crônica sobre a música que molda a identidade no interior do Tocantins.


Manoel, Luciano, seu Miúdo e João


Assim eram as manhãs de domingo. O Manoel, filho do Seu Getúlio — um dos últimos mestres da rabeca de buriti, conhecido por todos como Seu Miúdo —, batia levemente na minha porta. O toque era suave e ritmado, marca registrada de quem domina o pandeiro no grupo da família.

Eu nem precisava olhar para saber quem era. Naquela cidade pacata do Jalapão Ponte Alta do Tocantins, vigora um código próprio de pertencimento: o sobrenome é a própria origem. Sendo meu pai o Seu Pedro, eu sou o Luciano do Seu Pedro; ele, sem rodeios, é o Manoel do Seu Miúdo.

— Luciano, meu pai está chamando você para tomar um café lá em casa. Aproveita e traz o violão.

O convite era, na verdade, a senha oficial para o nosso ensaio.

A Chácara Urbana e a Velocidade do Som

Nossas casas, embora estivessem no perímetro urbano, guardavam a alma do sertão. Eram terrenos generosos, verdadeiras chácaras tomadas por pomares de caju, manga, jaca, limão, mandioca e cana. Tínhamos a conveniência da cidade envelopada pela calma do campo.

"Eu costumava brincar que a turma de lá era mais rápida que a velocidade do som: não dava tempo nem de afinar o instrumento e o quintal já estava povoado."

Antes mesmo do primeiro acorde, os vizinhos começavam a encostar. A notícia de música se espalhava pelo vento.

O Regional do Buriti

Aí começava o ritual. Eu me concentrava para alinhar a afinação do meu violão à sonoridade única da rabeca de buriti do Seu Miúdo — instrumento artesanal esculpido na própria palmeira, símbolo da resistência cultural da região. Logo depois, o João chegava para dar o tom grave com o tambor.

Estava formado o regional: rabeca de buriti, pandeiro, tambor e o meu violão na sustentação da harmonia.

E o café?

O café, que servira de pretexto inicial para o encontro, repousava esquecido no bule sobre o fogão a lenha. A essa altura, já havia esfriado e esquentado de novo.

Ninguém se importava. Afinal, ali no Jalapão, o café servia apenas para juntar as pessoas; quem realmente alimentava a manhã era a música.

(Cultura Jalapoense . Crônicas Culturais do Tocantins Profundo - Luciano de Souza).